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“Eu não quero um iPhone 12”

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Ouvi essa frase de uma aluna, numa conversa informal ao fim de uma aula pelo computador – e me encheu de esperança

Calma… Não tenho nada contra o iPhone 12 ou qualquer outro objeto de desejo de quem quer que seja. O meu prazer ao ouvir a frase é existencial. Explico: sou fruto da sociedade de consumo, aquela em que você não é você – mas sua profissão, seu emprego, as coisas que você tem, os lugares que visita, o restaurante que frequenta ou os pratos que come (e por aí vai…). Resumindo: sou filho e fruto da tal “sociedade de consumo”.

Como explicar esse conceito? Bem, vou tentar… Mais do que (infelizmente) exigirmos recursos do planeta para muito além de sua capacidade de produzi-los, nessa “sociedade” tudo em você e ao seu redor é externo a você. Que, por consequência, fica cada vez mais escondido sob camadas e mais camadas de símbolos, signos e representações. Tudo na vida é dirigido para esse “espaço”. E dá-lhe frustração… E surgem no horizonte os antidepressivos, as terapias, as dissonâncias existenciais.

Qual o remédio que se oferece contra isso? Adivinhou? Que tal um iPhone 12? Ou um carro novo, uma roupa nova, um badulaque inútil novo? E a ansiedade vira combustível para que, em vez de pensarmos em nós mesmos e nossos dilemas, basta substituir algo ainda funcional por outra coisa mais nova.

Como na canção de Cartola, “O mundo é um moinho”, talvez essa roda-viva de substituição pode ter um efeito deletério: “Quando notares estás à beira do abismo/Abismo que cavaste com os teus pés”. Um dia, uma bobagem de consumo pode preencher um pequeno vazio existencial. Porém, o vazio vai aumentar –assim como o que será necessário para preenchê-lo.

E assim caminha-se até o momento em que é preciso perguntar: qual o tamanho do vazio existencial que precisa, por exemplo, de um carro de R$ 1 milhão? E esse objeto consegue preenchê-lo por quanto tempo? E o que virá depois que o efeito acabar?

Não, não, não… Não critico o consumo e nem espero que as pessoas vivam vidas franciscanas (até porque é preciso saber discernir onde termina a utilidade real que facilita e resolve nossa vida e começa o consumismo tapa-vazio). E a forma como minha aluna disse “eu não quero um iPhone 12” me mostrou que ela sabia qual a diferença – e estava decidida a quebrar a lógica perversa que pode soterrar todos nós (se permitirmos).

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Jorge Tarquini

Sou um jornalista curioso e que se aventura por alguns lugares e experiências: já dirigi revistas, trabalho com produção de conteúdo, escrevo livros (um segredo: escrevi O Doce Veneno do Escorpião, o "livro da Bruna Surfistinha") e roteiros e, agora, faço parte da equipe que criou e produz o #TMJ. Ah: também virei professor de Jornalismo. Ansioso para descobrir para onde os novos tempos, meios e tecnologias podem me levar: afinal, é sempre um prazer me aventurar por novos desafios.

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