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Quer ser criativo e inovador? Vá brincar com crianças!

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Esse foi um dos (muitos) insights surgidos desse bate papo do #TMJ com Thiago Gringon, professor de criatividade e inovação da ESPM. E desvendamos ainda outros segredos…

Cinco e quinze da tarde na última terça-feira de maio, o celular vibra com uma mensagem no WhatsApp. É Thiago Gringon, 31 anos, professor de criatividade e inovação da ESPM, anunciando que já está no local marcado para nossa entrevista. Ao chegar ao café onde ocorrerá o bate papo vejo uma rodinha de alunos. Em meio ao grupo, um sujeito com roupas coloridas e um chapéu preto (que parece de mágico) chama a atenção. “Deve ser o Gringon”, logo penso, lembrando sua disciplina.

Aceno para o homem com roupas coloridas que caminha ao meu encontro e me cumprimenta de maneira informal, dando o tom de como seria nossa conversa. Depois de pedir seu café, Thiago se senta, olha disfarçadamente para minha lista de perguntas, dá uma risada e comenta: “Vai ser divertido”.

Thiago Gringon, professor de criatividade e inovação da ESPM

E foi! Ao longo de uma hora conversamos sobre aulas a fantasia, os segredos da criatividade e sua relação com inovação, algoritmos, inteligência artificial e muito mais. Spoiler: se você quer ser criativo é melhor passar mais tempo com a criançada. “É preciso voltar a acreditar na magia, nos contos de fada, naquilo que nos maravilhou quando éramos crianças”.

Por que sua aula é tão diferente como me disseram?
Minha aula é louca, mas tem um porquê. Minha disciplina está pautada em provocar os alunos a se questionarem, a me questionarem e a questionarem o próprio processo de aprendizagem. Quando falamos em criatividade e inovação começamos com a máxima de pensar fora da caixa, ir além de você mesmo e daquilo que te formou. É preciso desapegar de muita coisa, inclusive de uma autoimagem que está muito bem cristalizada. A partir disso, a magia acontece. Você descobre coisas sobre você e sobre o seu processo criativo que cada vez vão fazendo mais sentido. Aí você passa a questionar coisas que antes não questionava.

E que história é essa que você pede para os alunos se fantasiarem em uma de suas aulas. Qual o objetivo?
A fantasia representa o multiverso fantástico, aquele inconsciente coletivo que a gente precisa acessar para fazer com que as ideias fluam. É preciso voltar a acreditar na magia, nos contos de fada, naquilo que nos maravilhou quando éramos crianças. Quando o aluno se fantasia, de certa forma, deixa de ser ele, o ego é controlado e o superego se aflora. Então o subconsciente dele começa a ficar mais acordado e isso permite que ele explore os materiais e a proposta dos exercícios em uma outra dimensão. A sala também é redecorada com luz led e gelo seco. Esse ambiente faz um convite subconsciente para eles acessarem essa criança, entenderem que precisam se conectar com esse fantástico e se maravilhar. A partir disso, se questionam por que precisam de um terno e gravata para serem respeitados, por que não podem estar com um boné ou um chapéu colorido e também serem ouvidos.

“Criatividade é para todo mundo”

O que é criatividade? E como ser criativo?
Acho que passei os últimos 10 ou 12 anos estudando para tentar responder essa pergunta e ainda não sei. Na minha visão, ser criativo é uma constante mudança, um constante olhar para si mesmo e para como você está interagindo com o mundo. Ser criativo é manter e nutrir a sua centelha criadora, olhar para si mesmo sempre em construção. Sempre há algo a ser lapidado, a ser melhorado, a ser polido. No seu caso, você produz textos. Cada texto seu é a extensão de sua alma, de quem você é e daquilo que você acredita. Quando você começa a observar suas criações, começa a perceber quem você foi. A partir dessa observação, você consegue entender para onde está indo e quem você deseja ser.

Como a criatividade e a inovação se relacionam?
Inovação é outra palavrinha bem complexa, que está dentro do ciclo da criatividade. É gerar valor novo para o outro, trazer algo para a sociedade e para o mundo que de alguma forma as pessoas não estão vendo ou nem estão prontas para receber. Por isso, que hoje as inovações são, de certa forma, assombrosas, geram dúvida e surpresa. O criador muitas vezes é chamado de louco.  Para ser inovador você tem que comprar uma briga grande, tem que fazer com que a sua confiança naquilo que está vendo – e às vezes só você está vendo – seja cada vez mais potente. Assim, pode fazer com que aquilo se expanda e as outras pessoas no momento certo consigam ver.

Então tudo depende da ação, posso ser criativo e não ser inovador por que não executei nada?
Sim, a inovação requer impacto. Aquele produto que você está produzindo deve produzir um impacto que realmente mude o jogo. Ser inovador é mais difícil do que ser criativo.

As pessoas nascem criativas ou podem desenvolver essa habilidade?
Segundo a neurociência, nós nascemos criadores e nos tornamos criativos. É um jogo de palavras, mas que é bem significativo. Criador é o cara que cria e isso faz parte da natureza da nossa espécie. Há vários processos subconscientes que fazem a gente buscar novidades. Essa curiosidade faz parte da criatividade, dessa centelha criadora que nós temos. Se tornar criativo demanda interação com a cultura e com o ambiente em que estamos, isso vai faz com que a gente lapide virtudes, atributos e conhecimentos para aprimorarmos a nossa expressão criativa. Então somos os dois ao mesmo tempo. Em alguns momentos podemos estar mais criadores e às vezes estamos mais perto de sermos criativos, o que faz nos tornarmos inovadores lá na frente.

“A criatividade é como a gente interage com o mundo”

Algumas pessoas dizem que Matemática não é para elas, outras Português e há também aqueles que acreditam que não foram feitos para a criatividade.
Pode ser muito clichê, mas criatividade é para todo mundo. Da mesma forma como todas essas disciplinas também são. A matemática, por exemplo, é extremamente criativa: o modo que você compreende os números, como constrói as fórmulas e busca por respostas, tudo isso é pura criatividade. A criatividade não é só artística, não é só para as pessoas que se pintam ou que mergulham em uma lata de tinta. A criatividade é como a gente interage com o mundo e isso não depende de nossa linguagem, mas sim de como vou manipular essa linguagem. A dica para quem não se acha criativo é começar a se expor a novas experiências, novos pensamentos, novas ideias, novos conteúdos. Estamos na era dos algoritmos em plataformas como Spotify e Netflix e esses algoritmos nos mantém em nossa zona de conforto. Se expor a um conteúdo diferente é procurar na Netflix aquilo que você normalmente não assistiria, ir a uma festa, ler um livro, escutar uma música, conversar com alguém que está completamente distante da normalidade que é a sua vida. Isso vai fazer com que você observe o mundo por outra perspectiva e questione suas próprias ideias.

A tecnologia e os algoritmos estão nos deixando mais ou menos criativos?
Depende. A tecnologia é uma extensão humana, que estende a nossa atuação criativa, possibilitando novas ferramentas e técnicas para manifestarmos nossas ideias. O problema é quando a força da tecnologia é maior do que eu. Aí fico dependendo dessa ferramenta para criar e isso me prende na minha zona de conforto, fazendo com que eu não consiga produzir nada além daquilo que já sei, só fico replicando técnica. Acredito muito na inteligência artificial, acho que essa tecnologia vem para replicar como nosso cérebro funciona. Mas hoje a IA é limitada a partir daquilo que a gente conhece. Quando ela mesmo começar a se programar, vai dar saltos que a gente não espera.

E você acredita que a inteligência artificial será capaz de ser criativa?
Aí podemos entrar um pouco no que é processo de criação. Tem um ótimo livro chamado Roube Como Um Artista que fala do primeiro momento de um processo criativo, que é quando começamos a imitar. Fazemos a releitura de uma obra, imitamos uma ideia, tentamos misturar as coisas. A inteligência artificial faz exatamente isso: pega um conjunto de informações e referências, combina e te dá uma resposta. Então, de certa forma, a IA é criativa. Um segundo momento desse processo é você se desapegar de suas referências e começar a conectar coisas que antes não estavam conectadas, até que você começa a produzir algo que é completamente único. Esse livro fala que um bom ladrão é aquele que sabe referenciar muito bem, só que sem fazer uma cópia explícita.

“O problema é quando a força da tecnologia é maior do que eu. Aí fico dependendo dessa ferramenta para criar”

A criatividade está sendo corretamente estimulada no ambiente educacional?
O sistema educacional em todas as instâncias tem que melhorar. Recomendo um ótimo TED que é A Escola Mata a Criatividade, do Ken Robinson. Levando em conta que a criatividade é como interajo com o mundo, preciso construir um ambiente pedagógico que favoreça novas interações e o que Aristóteles e Platão faziam: que as pessoas questionem o próprio pensar e reflitam sobre as questões da vida. Se eu começo a investir hoje para desenvolver e nutrir esses atributos criativos de uma criança de sete anos, daqui a 20 ou 30 ela vai ter muito mais confiança para inovar e propor diferentes caminhos no mercado de trabalho. Isso muda a cultura de um país. Hoje no Brasil temos diferentes sistemas educacionais, nenhum é perfeito. Mas cada vez mais percebo pelas minhas conversas com os professores que tem melhorado essa inserção da criatividade não só na aula de artes, mas nas aulas de Português, Matemática e Educação Física. É um tema polêmico, porque a criatividade vai propor questionar o próprio sistema, mas a longo prazo existem muitos ganhos.

O que você pensa sobre espaços de coworking e escritórios moderninhos como o do Google?
Isso é um amo e odeio. No livro De Onde Vêm As Boas Ideias, o Steven Johnson fala que tem dois grandes espaços que favorecem novas ideias: cafés e chás. Segundo os meus alunos, existe um terceiro que é o bar. Então tomar um café, um chá ou uma cerveja possibilita a troca de ideias, referências e perspectivas sobre o que estou produzindo. Uma coisa que pergunto muito quando dou aula para startupeiros é: quem tem uma ideia de um milhão de dólares? Vários levantam a mão. A próxima pergunta que faço é: quem está compartilhando essa ideia? Ninguém compartilha. O problema é que se você guarda essa ideia para você e sua equipe, vocês terão a mesma perspectiva. O que possibilita um coworking ou esses escritórios moderninhos? Choque de pessoas. Você está lá, vai na cafeteira e compartilha um problema com alguém que você talvez nem conheça. Aí essa pessoa dá sua opinião e isso faz com que você expanda sua percepção. O lado odeio desses lugares é que fica um monte de gente sentada e ninguém conversa.

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Filipe Oliveira

Do clã Kardashian-Jenner a entrevistas com CEOs, até o título mundial do Corinthians. Nessa vida de jornalista já cobri de tudo um pouco: esportes, tv e cinema, agronegócio, tecnologia, negócios, empreendedorismo e setor automotivo. Depois de uma temporada de estudos e aventuras na África do Sul, voltei ao Brasil em busca de um novo desafio. Assim vim parar na equipe que criou e produz o #TMJ.

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