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“O jornalista estará cada vez mais envolvido com marketing e negócios”

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A afirmação é de Maria Elisabete Antonioli, coordenadora do curso de Jornalismo da ESPM-SP, que completa dez anos em 2021

Já parou para pensar o quanto sua vida mudou nos últimos dez anos? A popularização de aplicativos, redes sociais e serviços de streaming provocou profundas transformações em nossos hábitos de consumo, entretenimento, transporte, educação e na maneira com que nos informamos. Imagine então o que uma década de mudanças representa para um curso de graduação, que tem o objetivo de formar profissionais para carreiras que podem durar uma vida. Para entender como é lidar com esse desafio, o #TMJ bateu um papo com Maria Elisabete Antonioli, coordenadora do curso de Jornalismo da ESPM em São Paulo, que completa dez anos em 2021.

Além de falar sobre as mudanças no perfil dos estudantes durante esse período, a acadêmica avaliou o que espera para o futuro da profissão, os impactos da pandemia na área, quais as principais oportunidades para quem se forma em jornalismo atualmente e deu dicas para quem sonha em seguir a profissão.

Quem era o jovem que procurava o curso de jornalismo há dez anos e quem o procura hoje? O que mudou em relação a motivações e expectativas?

Eu acho que o jovem que procurava os cursos de Jornalismo há dez anos ainda carregava um pouco mais as características do jornalismo do século passado, do veículo impresso, do arquétipo do Superman, de um jornalista mais voltado para os veículos como rádio, TV, jornais e revistas. O jornalismo digital ainda era produzido em um número menor, então ainda não estava tão presente como hoje. Atualmente, os jovens estão mais desprendidos. Pensam em fazer jornalismo de uma forma geral, mas estão voltados ao digital, aliás eles nasceram no ambiente digital, por isso existe uma sinergia muito forte. Gostam de novos projetos de jornalismo, de novas possibilidades para se fazer jornalismo no digital. Já assistem programas de televisão pela internet, tanto é que veículos como o rádio, TV e jornais e revistas impressos também estão na internet. Agora vejo no jornalismo esportivo um interesse crescente e que os jovens tinham também há dez anos.

“O jovem que procurava os cursos de Jornalismo há dez anos ainda carregava um pouco mais as características do jornalismo do século passado”

Quais são os principais caminhos seguidos por quem se forma em jornalismo atualmente?

Ocorreu uma ampliação no mercado de trabalho, em termos de opções, e os alunos da ESPM se espalham pelas diversas mídias, assim como para agências de comunicação, para a comunicação corporativa, assessoria de imprensa, como também se dirigem para o empreendedorismo nos negócios ou como produtores independentes. Temos alunos que foram para a área de games também.

Quais as principais mudanças que o curso de jornalismo da ESPM precisou passar durante esses dez anos para se manter relevante para o mercado e estudantes?

Além de novas disciplinas e conteúdos, temos, por exemplo, o Centro Experimental de Jornalismo (CEJor), que é um espaço de aprendizagem, pesquisa e experimentações onde o aluno tem a oportunidade de praticar jornalismo em diversos formatos, além das aulas. O Centro tem um professor responsável, que lidera oito docentes-orientadores em quatro espaços: Agência de Jornalismo (AJ) –  na qual os alunos fazem programas de entrevistas em vídeo para o Linkados na Área; oficinas de Fotojornalismo; podcasts, reportagens de rádio e para a CBN; matérias em audiovisual; conteúdo sobre moda, no blog Pesponto em Pauta; notícias para o Portal de Jornalismo ESPM; matérias para o blog De Olho na Carreira; conteúdo em diversos formatos sobre jornalismo esportivo; reportagens para a revista Plural; e posts com conteúdo em comunicação para veiculação nas redes sociais. Laboratório de Formatos Híbridos em Jornalismo (LabFor) – os alunos desenvolvem produções como reportagens big data, multimídia e em realidade aumentada. Agência de Comunicação Corporativa (ComCorp) – agência experimental de comunicação corporativa que atua no planejamento e implementação de projetos de comunicação, com atendimento gratuito a startups e ONGs.

O empreendedorismo é hoje uma possibilidade real para o jovem jornalista? Como o curso de jornalismo da ESPM prepara os estudantes para essa possibilidade?

Além da disciplina Gestão em empresas de mídia, que aborda conteúdos sobre empreendedorismo, temos um projeto bem interessante que é o Projeto de Jornalismo Empreendedor (EmpreendaJor), desenvolvido no CEJor. Os alunos podem propor um negócio em jornalismo e, se aprovado, passam a receber orientações de um professor durante um semestre. Esses projetos podem ser indicados para a Base – incubadora de negócios da ESPM. Já temos ex-alunos que empreenderam negócios e já começam a contratar nossos alunos para vagas de estágio.

Como a pandemia impactou o curso de jornalismo? Que tipo de adaptação vocês tiveram que realizar neste período? Algo funcionou e pretendem manter mesmo após a pandemia?

Novos formatos de produções foram criados e os alunos em vez dos estúdios passaram a produzir diretamente de suas casas com a orientação docente e participação da equipe técnica. Toda a produção do curso foi mantida tanto das aulas como do CEJor. Todos os programas de rádio e vídeo foram veiculados. As edições do telejornal, por exemplo, continuaram ao vivo. Tivemos uma experiência muito interessante que foi o Telejornal em Rede que uniu os cursos de Jornalismo de São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre. As entrevistas passaram a ser feitas por Skype e outras plataformas e foram muito interessantes pela possibilidade de alcançarem muito mais pessoas. Então, por exemplo, esses formatos de entrevistas deverão ocorrer mesmo após a pandemia com grande intensidade o que não era usual. Essas e outras são novas possibilidades de fazer jornalismo devem ter continuidade.

A audiência dos veículos de imprensa aumentou durante a pandemia e, apesar de alguns ataques, observamos uma valorização do trabalho da imprensa neste período. Você acredita que isso terá algum reflexo na busca pelo curso de jornalismo nos próximos anos?

Como você mencionou a audiência dos veículos aumentou e eu acredito que a sociedade percebeu muito mais durante a pandemia a importância do jornalismo em oferecer uma informação qualificada. Em um universo povoado por fake news, o jornalista, além de produzir, faz o trabalho de fact-checking, pois as desinformações sobre a pandemia são de toda ordem. Nesse sentido, as atividades do jornalista foram ampliadas. O jornalista precisa pesquisar muito e acho que a imprensa está fazendo um excelente trabalho nessa pandemia e, com certeza, esses resultados devem inspirar os jovens na busca pelo curso.

A inteligência artificial (IA) ameaça uma série de profissões, inclusive a de jornalista. Já existem até mesmo sistemas de IA que escrevem os próprios textos e que apresentam telejornais. Como coordenadora de um curso de jornalismo, como você vê esses movimentos?

A IA é uma realidade e contribui com o jornalismo, mas acredito que não substituirá o trabalho do jornalista. No caso dos textos, por exemplo, é preciso uma revisão humana. Além disso, os sistemas de IA não conseguem escrever uma história humanizada, o que é uma tendência no jornalismo. Ainda existe o adicional de que o leitor, inclusive por intermédio das redes sociais, está mais próximo do jornalista, pode interagir com ele. O jornalista não tem mais uma relação mais vertical com o público como acontecia antes. Agora ele é mais presente na vida das pessoas. Mas é claro, que não podemos desconsiderar esse trabalho. Nos Estados Unidos há jornais que utilizam esses recursos e produzem pequenas notas. Há também, por exemplo, a Narrative Science, que produz notícias por meio do processamento de dados. Mas no jornalismo de uma forma geral não vejo uma ameaça, pois para a reportagem jornalística requer um método que não se substitui. Acho que devemos aproveitar a inteligência artificial mais a nosso favor, utilizando os recursos disponíveis para o jornalismo. No caso da apresentação de telejornais, então, é preciso a credibilidade do âncora. De toda forma é uma discussão interessante para se fazer.

“Sistemas de IA não conseguem escrever uma história humanizada, o que é uma tendência no jornalismo”

Atualmente, o que é essencial para um jovem que sonha em seguir carreira no jornalismo?

Acredito que de certa forma é essencial que o jovem sinta que vai ser feliz em qualquer profissão que escolha. Esse é o primeiro passo. No caso do jornalismo é importante que ele tenha ciência da importância do jornalismo para a sociedade e a relevância da profissão. Quanto ao perfil, acredito que é preciso ler muito e escrever, pois mesmo trabalhando em plataformas de audiovisual, ele vai precisar desenvolver um texto. Muitas agências de comunicação contratam jornalistas, inclusive, pois eles sabem escrever boas histórias. Então acho que o texto é o ponto de partida para outras linguagens. Mas este é, como mencionei, apenas um ponto de partida, pois a carreira se sofisticou ao longo dos anos e não está mais restrita a produções. É preciso pensar na audiência, no negócio em jornalismo, por exemplo, que são questões mais complexas e fazem parte do universo jornalístico.

Em sua opinião, quais áreas devem bombar para jornalistas nos próximos anos?

É muito difícil imaginar a longo prazo o que deve bombar, por isso eu não arriscaria uma área específica, mas acredito que as tecnologias devem direcionar as produções com novos formatos mais interativos, como a gamificação e como o jornalismo imersivo por exemplo. Acho também que muitas startups serão criadas com diferentes modelos. Acredito que os modelos de distribuição deverão ter um espaço considerável.

E como você imagina o curso de jornalismo da ESPM daqui a dez anos?

Dez anos é um período longo para previsões dessa natureza, mas eu tenho convicção que estaremos sempre oferecendo um curso sintonizado com as melhores práticas jornalísticas em termos nacional e global. Nosso corpo docente está sintonizado com o jornalismo no presente e por meio de estudos e pesquisas e a própria práxis produz conhecimentos sobre comunicação e jornalismo acenando para o futuro. Penso que o célere crescimento da tecnologia vai nos proporcionar ainda mais possibilidades para se fazer jornalismo é preciso que estejamos continuamente sintonizados com as mudanças. Mas não é só isso, precisamos pensar cada vez mais no fluxo da informação, ou seja, como ela chega à sociedade. Então os processos de circulação da informação precisam ser estudados e aprimorados, pois geram diferentes impactos na sociedade. Também vejo que o jornalista estará cada vez mais envolvido com marketing e negócios, que são áreas que já trabalhamos.

“Vejo que o jornalista estará cada vez mais envolvido com marketing e negócios”

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Tags:
Filipe Oliveira

Editor do #TMJ.

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