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“O podcast tem um futuro muito bom no Brasil”, avalia criadora do ‘Praia dos Ossos’

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Branca Vianna, presidente da Rádio Novelo e apresentadora do Maria vai com as outras e do Praia dos Ossos, fala sobre feminismo, sua carreira e o mercado de podcasts nacional em entrevista ao #TMJ 

O #TMJ bateu um papo com Branca Vianna, presidente da Rádio Novelo e idealizadora e apresentadora dos podcasts Maria vai com as outras, sobre mulher e mercado de trabalho, e Praia dos Ossos, que retrata o caso Ângela Diniz, socialite assassinada pelo namorado em 1976.

Nesta conversa, Branca fala sobre feminismo, o sucesso de Praia dos Ossos, o que aprendeu em quatro temporadas do Maria vai com as outras, avalia o mercado de pocasts nacional e dá dicas para quem sonha em ter o próprio podcast.

Como começou o seu relacionamento com podcasts?

Eu sempre gostei muito de podcast. Deve ter 15 ou 20 anos que eu ouço. O podcast é uma ótima maneira de treinar o que chamamos de “língua de trabalho” [Branca trabalhava como interprete simultânea]. Ajuda a se manter atualizado não só na língua, mas no que está acontecendo nos países que a falam, seja na política, na cultura pop, as novas gírias, o novo jeito das pessoas falarem. O podcast é muito útil para treinar o ouvido, porque assim como quando estamos na cabine fazendo interpretação, não tem a imagem como suporte.

E como foi a transição da carreira de interprete simultânea para podcaster?

Quando a Piauí decidiu fazer o Foro de Teresina, aproveitei a oportunidade para fazer meu pitch sobre um podcast tratando da questão da mulher e mercado de trabalho, algo que eu ouvia muito fora do Brasil. Eu achei que seria uma discussão interessante de introduzir no debate feminista brasileiro, tentando ampliar um pouco para além do movimento feminista, porque questões de diferença de remuneração e oportunidade também são questões de PIB brasileiro. Hoje em dia, quase metade das famílias brasileiras é chefiada por mulheres. Então se a mulher ganha 20 a 30% menos que o homem, esse é um problema para 40% das famílias brasileiras. Um problema muito grande que afeta desigualdade de renda e a riqueza da nação de forma geral. Por isso, acho que precisa ser discutido além do movimento feminista.

De alguma forma, as skills da carreira de interprete simultânea te ajudaram no mundo dos podcasts?

É gozado, sabe que sim. Por um fato muito simples, microfone não me assusta. Estou muito acostumada a falar no microfone e a ouvir minha própria voz. Como interprete e como professora de intepretação sempre tive o hábito de me gravar na cabine para poder me ouvir depois e corrigir os meus erros.

Ao longo de quatro temporadas do Maria Vai Com As Outras vocês conversaram com mulheres de diferentes ramos e classes sociais. O que você aprendeu com elas?

O que mais me impressionou foi a enorme dificuldade que as minhas entrevistadas têm de se dizerem feministas. “Você se considera feminista?” é uma pergunta que costumo fazer. A resposta geralmente ou é não de cara ou então é uma resposta muito hesitante. Percebi que o erro é nosso, as feministas, de não conseguir explicar direito o que é o feminismo para pessoas que não são do movimento. Acho que temos a obrigação de tentar conversar com as mulheres que claramente têm uma trajetória feminista, mas não se declaram assim. Precisamos entender por que essa pessoa não quer se dizer feminista? O que vai acontecer na família dela se ela se declarar feminista? O que o círculo de colegas de trabalho vai achar? O que vai significar para a carreira dela?

Por que vocês decidiram revisitar o caso Ângela Diniz e o transformar em um podcast?

A gente queria muito contar essa história porque eu, a Paulinha [Paula Scarpin, diretora de Criação da Novelo] e a Flora [Flora Thomson-Deveaux, diretora de Pesquisa da Novelo] constatamos que era uma história importante em vários sentidos. Sobre o sistema judiciário brasileiro, sobre o movimento feminista brasileiro, sobre como a imprensa trata esses casos, e importante também para entender o Brasil do início da abertura política e todo aquele caldo cultural. Quando a gente percebeu que as pessoas das novas gerações não conheciam a história da Ângela Diniz, nem da virada feminista, percebemos que era uma super-história que poderíamos contar em podcast.

Branca Vianna com a jornalista Isabela Teixeira da Costa pesquisando sobre o caso Ângela Diniz nos arquivos do jornal Estado de Minas Foto: Divulgação

Quais são seus planos para o futuro da Rádio Novelo?

Somos bem ambiciosos. A gente acha que o podcast tem um futuro muito bom no Brasil. Até uns três anos atrás, era considerado aquela coisa que a pessoa faz em casa, meio de qualquer jeito, sem qualidade de som, sem edição. Aos poucos estão surgindo podcasts como o Praia, o Foro de Teresina, que estão fazendo com que todo mundo leve podcast a sério. A imprensa também está levando, tanto é que você vê resenha de podcast em todos os grandes jornais. Tem também o fato de a Globo ter lançado um monte de podcasts. Foi um salto. De uma hora para a outra, a gente não precisava mais começar as reuniões explicando o que era podcast, todo mundo sabia o que era. E aí passou a ser levado a sério pela grande mídia, pelas empresas que podem patrocinar, pelas grandes agências. O podcast no Brasil ainda é tão incipiente, que ainda acho que não tem concorrência. Tem poucas produtoras, que conversam umas com as outras e trocam referências. E os podcasts ainda são tão poucos no Brasil que ainda não concorrem pelo ouvido dos ouvintes. Todo podcast novo faz com que a audiência cresça. Você ganha um novo público que só gosta daquela coisa especifica.

Que dicas você daria para alguém quer começar um podcast?

Ouça muito podcast. Ouça muito, muito, muito podcast. Tanto podcasts que você gosta, quanto que você não gosta. Em áreas que não te interessam, cujo o formato não te interessa, para você poder entender o que é bom e o que não é, o que te agrada e o que não agrada, o que é bem feito e o que é mal feito. E nesse mal feito, pense o que você faria de diferente. No bem feito, não ouve só se distraindo lavando louça, ouve desconstruindo, prestando atenção. “Ah, eu gostei muito desse episódio aqui”. Por que você gostou muito desse episódio? Foi a narração, a trilha, a história, o tema? Tenta entender o que é antes de pensar em ter um podcast. E saiba que um podcast pode ser feito como o Praia dos Ossos, que foi uma coisa muito sofisticada, com uma equipe grande de profissionais, ou um podcast feito em casa. O podcast feito em casa por uma pessoa com equipamento mínimo também pode ser muito bom, mas tem que ser muito bem-feito. Tem que pensar antes no que você quer dizer, por que acha que o podcast é uma boa maneira de dizer o que você quer dizer, para quem você quer dizer, quem você acha que vai se interessar? E aí escolher o melhor formato.

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Tags:
Filipe Oliveira

Editor do #TMJ.

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