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“Viajar é a maior lição que a gente pode ter na vida”, diz André Fran

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Em entrevista ao #TMJ, apresentador do Que Mundo é Esse?, que já visitou mais de 60 países, revela os bastidores do programa e detalhes sobre o processo de produção de um programa televisivo de viagens 

Você provavelmente já sonhou em viajar o mundo com os amigos. Imagine então fazer isso sendo remunerado e ainda ter o seu próprio programa de TV. Ao longo de mais de dez anos, essa tem sido a realidade de André Fran, apresentador dos programas Não Conta Lá em Casa (Canais Globo) e Que Mundo é Esse? (Globoplay).

O jornalista tem em seu passaporte o carimbo de mais de 60 países, com destaque para destinos nada tradicionais, como Coreia do Norte, Mianmar, Tuvalu, Etiópia, Somália, Iraque e Afeganistão. “Quanto mais você viaja, quanto mais você conhece, quanto mais você aprende, você vê que o seu conhecimento é só uma lasquinha, um grãozinho de areia nesse planeta terra”, diz o jornalista em entrevista ao #TMJ.  

Nesta conversa, Fran – que lançou durante a pandemia um canal no YouTube – revela os bastidores de programas de viagens, fala sobre o processo de criação de roteiros, dá dicas para quem sonha em trabalhar com audiovisual e faz uma análise sobre o turismo pós-pandemia. Além de contar como foi estar em um dos epicentros da covid-19 antes de sequer imaginar que a pandemia atingiria o Brasil.

Preguiça de textão? Confira um resumo da entrevista clicando aqui.

Como você foi parar na equipe do Não Conta Lá Em Casa (que deu origem ao Que Mundo é Esse?) e qual a importância do programa para sua carreira?

Dentro de um grande grupo de amigos de infância aqui do Rio de Janeiro, tinha um núcleo que gostava de política, culturas diferentes, debater documentário e noticiário internacional.  Nessa época, começamos a trabalhar com audiovisual, aproveitando que os equipamentos ficaram mais acessíveis. Fazíamos vídeos para empresas, sites e bandas de amigos. Quando houve um tsunami no sudeste asiático [em 2004], que destruiu Sumatra, ilha da Indonésia, alguns desses amigos tinham uma viagem de surf de férias marcada para lá. Eles acharam que teriam que cancelar tudo, mas aí tivemos um estalo e falamos: ‘Cara, por que vocês não mantêm a viagem e levam nossos equipamentos para registrar como uma viagem de surf virou uma expedição para o epicentro dessa tragédia?’. Eles fizeram isso, filmaram e eu fiquei fazendo produção aqui do Brasil. Voltaram com mais de 60 horas de material e eu e o Leondre Campos editamos, dirigimos o filme e lançamos de forma independente o Indo.doc (2007). Acabou que caiu no gosto e foi exibido no SporTV e depois no Canal Brasil. A gente decidiu dar sequência através de uma série com a mesma proposta de ver destinos que as pessoas não conhecem ou não têm acesso por diferentes motivos, que se tornou o Não Conta Lá em Casa. Batemos em várias portas até que o Multishow abraçou a gente. E esse foi o cartão de visita da minha carreira.

Muita gente sonha em viajar o mundo com os amigos, vocês fazem isso e ainda são remunerados. Como é e o quanto é trabalho e o quanto é diversão?

A forma de a gente apresentar não é a de apresentadores profissionais, treinados para aquilo. Somos caras comuns, curiosos, jornalistas que estão interessados em conhecer a história e a contar para as pessoas. Ao mesmo tempo que isso dá um aspecto original para as produções, por outro lado é um trabalho muito grande na pós-produção para não perder essa naturalidade, mas sem mostrar todos os bastidores que são necessários para você fazer um programa de TV. Durante as viagens é trabalho o tempo todo, na hora que estamos indo dormir ainda estou confirmando entrevista, checando uma pauta que a gente vai fazer, alguma coisa que mudou dentro do roteiro e preciso reestruturar. É o tempo todo focado na produção, baixando material para o computador, recarregando bateria, consertando coisas que por ventura quebram no meio do caminho. É trabalho o tempo todo, mas que temos meio que excluir para deixar fluir aquela coisa da viagem, da descoberta e tal.

“Durante as viagens é trabalho o tempo todo”

Como é escrever o roteiro de um programa de viagem, como juntar tudo o que aconteceu em um texto curto e quais são os principais desafios e técnicas que você utiliza?

Costumo dizer que trabalho com três roteiros para cada programa. Quando decidimos o destino ou a história que vamos contar, partimos para elaborar um primeiro com a parte de pesquisa, decidindo como podemos abordar questões importantes de um país. Por exemplo, a Rússia tem o lado da antiga União Soviética e o lado da nova Rússia capitalista. A junção desses dois momentos pode ser uns caras que alugam tanques do período soviético para as pessoas darem passeio pagando, então é uma pauta. Mas quando chegamos aos destinos, muita coisa muda. Você conhece um personagem que achou que era interessante, mas não rende tanto. Ao mesmo tempo, ele apresenta um lugar que você não tinha pensado em filmar e é superinteressante. Então puxa aquilo dali, traz pra cá, joga pra lá. O terceiro é quando a gente volta. Na hora da edição eu faço o roteiro, dizendo que no primeiro episódio vai ter isso, segundo isso, terceiro isso e a equipe me diz que algo não está encaixando bem. Aí damos uma terceira remodelada.

Somando o Não Conta Lá em Casa e o Que Mundo é Esse?, vocês estão há mais de 10 anos no ar com programas de viagem. Como a evolução tecnológica impactou o trabalho de vocês?

Lembro que nas primeiras viagens a gente marcava tudo, os contatos, hotel, viagem, onde aluga carro. E a gente juntava grana e o máximo que a gente conseguia era meia hora em um cybercafé ou meia hora da internet no lobby do hotel. Hoje em dia, o celular é o tempo todo: confirmamos por WhatsApp a entrevista, vemos no Google Maps o caminho para uma viagem, usamos um aplicativo para chamar o carro e usamos as redes sociais, que revolucionaram nosso programa. Antes de viajar a gente já está usando redes sociais para produzir, não só na parte de pesquisa, mas na parte de contatos. A gente diz que está indo para a Tunísia, pergunta se alguém conhece uma pessoa que está lá e sempre tem. Então, pegamos esse momento de transição, foi completamente transformador para o nosso programa e no nosso caso ajudou demais, programa de viagem isso faz toda a diferença.

“As redes sociais revolucionaram nosso programa”

Do ponto de vista de captação de áudio e vídeo o que mudou?

Todo tipo de acessório que a gente possa usar é bem-vindo para contar nossa história. Os drones chegaram e a gente precisava ter aquilo. Antes para ter uma imagem aérea você tinha que contratar um helicóptero, um cara com uma câmera especializado em filmar no ar. Lembro que no início, uma das primeiras viagens que fizemos levando o drone, era uma caixa gigante toda reforçada. A gente foi subir para fazer uma imagem em um pico, tivemos que revezar, cada um carregava um pedaço. Hoje em dia, o drone que a gente usa cabe no bolso e a imagem é de maior qualidade ainda.

Você tem ideia de quantos países já visitou? E como está sendo para você não poder viajar por conta da pandemia?

Tem um app que se chama Been que anoto nele cada país novo que eu vou. São 63 países que conheci pelo mundo. Sempre me perguntam o que um cara que viaja como profissão faz nas férias, e eu sempre digo que viajo. Não o mesmo tipo de viagem, viagem com a família. Vou para a Disney, para uma praia no Nordeste, um lugar mais tranquilo. E aí fico nessa dificuldade, ansiedade de não poder viajar. Viajar para mim é a maior lição que a gente pode ter de vida, de humanidade, de história, de cultura e geografia.

Você descreve o ato de viajar como uma questão de evolução e aprendizado. O que você aprendeu com essas viagens?

A maior lição é aquela frase do filósofo Sócrates ‘Só sei que nada sei’. Quanto mais você viaja, quanto mais você conhece, quanto mais você aprende, você vê que o seu conhecimento é só uma lasquinha, um grãozinho de areia nesse planeta terra. Você vai vendo que tem mais coisa ainda que você precisa conhecer e ao menos para mim vai dando essa vontade de cada vez mais conhecer o mundo, as histórias, as culturas, as pessoas. Você vai pensando ‘Cara, como eu não sabia disso? Como eu achava que era diferente do que realmente é? Que curioso, que interessante!’. E como essa diversidade do ser humano – que tantos usam para afastar, que é motivo de guerra, preconceito – é interessante. Isso é o mais legal, você ver uma pessoa com uma religião diferente, uma roupa diferente, costumes diferentes e quando você começa a conversar percebe que é tão próximo de você – tem os mesmos medos, alegrias, os mesmos desejos. Já fiz amizade com monge, guerrilheiro iraquiano, pirata somali, palestino, judeu.

“Quanto mais você viaja, você vê que o seu conhecimento é só um grãozinho de areia nesse planeta terra”

No comecinho da pandemia vocês estiveram no Japão com o Que Mundo é Esse? e chegaram bem perto do cruzeiro Diamond Princess, que estava atracado no porto de Yokohama e até então era o segundo maior epicentro de covid no mundo. No momento das filmagens, vocês imaginam que aquele vírus se tornaria um problema mundial e chegaria ao Brasil?

Não, não dava para ter ideia. Não tinha sido nem decretada a pandemia ainda. No momento era só uma epidemia localizada em uma região da China. A gente até pensou: ‘Será que essa história vai desenvolver? De repente, a gente vai voltar lá e já acabou essa história de coronavírus e ninguém vai se interessar por esse navio’. A gente pensou em registrar porque poderia ser uma boa história e acabou se tornando a grande pauta da temporada do Japão, porque era ali um exemplo do início dessa pandemia que tomou o mundo e está afetando a gente até hoje.

Como um viajante com muitas milhas no currículo, como você imagina a retomada do turismo no pós-pandemia? Você vê algum impacto em médio ou longo prazo ou acha que tudo voltará ao normal?

Sempre que a gente teve grandes momentos-chave da história as coisas não foram mais como eram antes. Depois das guerras você tem acordos para não proliferação de armas nucleares, para que aquilo nunca mais aconteça. Depois do 11 de Setembro a parte de segurança nos aeroportos mudou para sempre. Criaram uma série de protocolos e medidas de segurança e o ato de viajar de avião nunca mais foi o mesmo. Acho que muita coisa vai voltar ao quase como era antes, mas como era antes acho que nunca mais vai ser. Não só na parte de viajar, mas de relacionamento diplomático entre os países, até da circulação de estrangeiros pelo mundo e das medidas de protocolos sanitários.

“Acho que muita coisa vai voltar ao quase como era antes, mas como era antes acho que nunca mais vai ser”

Que dica você daria para um jovem que sonha em trabalhar com audiovisual, ter o próprio programa de viagens ou empreender no setor?

Sempre fui um cara que quer planejar tudo, pesquisar ao extremo, deixar tudo amarradinho e só depois de testar e ver que está tudo 100% perfeito, lançar. E eu perdi muitas oportunidades por conta disso. Se eu puder dar um conselho, talvez seja ousar, experimentar. Se você quer lançar um podcast, grava, produz, lança, ouve o feedback da galera. Quer fazer um filme, faz primeiro um curta, pega uma grana emprestada, aluga uma câmera, faz com o celular, mas faça, realize, experimente. É isso que vai fazer no fim das contas você ser um grande criador. E beber de muita referência. Mesmo que queria focar em uma mídia só, por exemplo, cinema documentário, bebe do maior número de referências possível. Todo tipo de filme, do Netflix a filme artístico italiano, lê livros variados, consome muita reportagem na internet. Isso vai acabar enriquecendo o seu produto final, que vai sair com a sua interpretação, mas municiado por muitas fontes diferentes.

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Filipe Oliveira

Editor do #TMJ.

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