Tecnologia já é utilizada em smartphones, redes sociais e em polêmicos sistemas de monitoramento. Qual o limite para marcas e governos?
Um homem caminha pelas ruas enquanto uma câmera o monitora. Em questão de segundos, o dispositivo reconhece o seu rosto e acessa uma base de dados com suas informações pessoais, como nome, profissão e onde ele vive. Sem perceber que está sendo observado, o indivíduo entra em um banheiro público, lava o rosto e quando vai secar as mãos uma papeleira tecnológica (que também já sabe sua identidade) libera exatamente 60 centímetros de papel. Se precisar de mais, o sujeito terá que aguardar 9 minutos para que uma nova cota seja liberada para o seu perfil.
Parece o Big Brother, lembra o Show de Trumam, mas esse moderno sistema de monitoramento já é utilizado na China, país líder no uso e desenvolvimento de tecnologia de reconhecimento facial. De acordo com a revista inglesa The Economist, a nação asiática já possui 170 milhões de câmeras de monitoramento, número que será ampliado para 570 milhões até 2021.
Muito Black Mirror? Saiba que é apenas o começo. Startups chinesas, como a YITU, trabalham no desenvolvimento de algoritmos de reconhecimento facial para ler emoções – algo que garantem já ser possível. E um estudo da Universidade Stanford, na Califórnia (EUA), revelou que a inteligência artificial é capaz de descobrir se uma pessoa é gay ou não com 81% de precisão, analisando apenas fotos de rostos. Cê acredita?
“Ufa! Ainda bem que estou no Brasil”
Se a frase acima passou em sua cabeça, saiba que sistemas de monitoramento com reconhecimento fácil também estão sendo testados por aqui em cidades como Rio de Janeiro, Campinas e Salvador. Durante o carnaval deste ano, a polícia da capital baiana conseguiu até mesmo prender um homem procurado por assassinato graças a essa tecnologia. E olha que o sujeito usava peruca rosa em meio a uma multidão em um bloquinho.
Onde mais é aplicada?
Enquanto governos parecem estar mais interessados em usar o reconhecimento facial para vigiar e controlar os cidadãos, startups trabalham em soluções que prometem facilitar as vidas das pessoas.
Confira a seguir algumas aplicações dessa tecnologia:
Caixas eletrônicos: é possível sacar dinheiro sem apresentar cartão ou usar biometria
Aeroportos: a tecnologia facilita o embarque com check-ins sem a apresentação de documentos
Máquinas de snacks: é possível comprar produtos sem dinheiro ou cartão, apenas aparecendo em frente a câmera
Redes sociais como o Facebook utilizam o reconhecimento facial para tagear automaticamente pessoas em fotos
Portarias: tecnologia é usada para controlar o acesso de pessoas em condomínios
Cartão de crédito: empresas estão utilizando o reconhecimento facial para autenticação de compras com selfies
Marketing e publicidade podem usar a tecnologia para criar anúncios personalizados para cada consumidor
Smartphones: usado para desbloqueio do aparelho
Riscos e oportunidades
Para Mario Ernesto Rene Schweriner, coordenador do curso de graduação em Ciências Sociais e do Consumo da ESPM, a tecnologia de reconhecimento facial dará às empresas um mapeamento emocional inédito dos consumidores. “As emoções são expressas pela face. E o reconhecimento facial pode ler essas expressões. Se a pessoa estiver surpresa, por exemplo, é possível deduzir que ela achou algo caro, feio ou maravilhoso”, analisa Schweriner. “Você poderá, por exemplo, ter câmeras em shoppings que percebem que um consumidor olha a vitrine com a pupila dilatando [sinal de interesse] quando vê determinado produto”.
A grande questão é se essa vigilância dos consumidores por parte das empresas é algo ético ou não. Para o professor, é fundamental que as marcas peçam autorização às pessoas antes de registrá-las em seu banco de dados. Além disso, as companhias precisam se comprometer a não vender essas informações para outras empresas. “A ciência em si é fabulosa, o uso que se faze dela é que é péssimo, porque quem a manuseia é o ser humano”, diz Schweriner. “Então é preciso ter um comitê, um grupo que emana das ciências sociais e éticas, dizendo que aquilo deve ou não ser usado para determinado fim”.
O debate sobre invasão de privacidade por empresas e governos também é assunto nos Estados Unidos. O AI Now Institute, que estuda as aplicações sociais da inteligência artificial, recomendou em seu relatório manual de 2018 a regulamentação do reconhecimento facial para “proteger o interesse público”. Para o instituto, as regulações deveriam incluir leis nacionais que exijam supervisão intensa, transparência pública e imponham limitações ao uso dessa tecnologia. E mais: as pessoas deveriam até mesmo ter o direito de rejeitar a aplicação do reconhecimento facial em ambientes públicos e privados. “Meros avisos públicos do uso dessas tecnologias não são suficientes. Deveria haver um limiar alto para qualquer consentimento, dado os perigos da vigilância em massa opressiva e continua”, alerta o instituto norte-americano.
A cidade de São Francisco, na Califórnia (EUA), proibiu o uso de softwares de reconhecimento facial pela polícia e órgãos da administração municipal. Como mencionado anteriormente, a tecnologia vem sendo usada em algumas cidades para encontrar suspeitos de crimes. Outras cidades dos Estados Unidos também estão considerando a proibição.
Como funciona o reconhecimento facial?
1 – Uma câmera capta a imagem do rosto e a envia a um
computador
2 – Um algoritmo analisa características, como a distância
entre os olhos, o contorno da face e o tamanho do nariz e da boca
3 – Com os dados coletados, o sistema cria uma identidade
virtual para o indivíduo com base em suas características físicas
4 – Ao aparecer em uma câmera do sistema, mesmo que no meio de uma multidão, o indivíduo é identificado em questão de segundos, mesmo se estiver disfarçado