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Meu sonho é democratizar o acesso a água, diz jovem que criou sistema de purificação com luz solar

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Inspirada pelo livro Vidas Secas, de Graciliano Ramos, Anna Luísa Beserra criou o Aqualuz, tecnologia que trata água em zonas rurais por meio da radiação ultravioleta e já atende mais de 700 famílias

A baiana Anna Luísa Beserra sempre gostou de ciências. Sonhava ser cientista e fazer a diferença no mundo, criando algo que pudesse transformar a vida das pessoas. A leitura de Vidas Secas, romance de Graciliano Ramos que conta a história de uma família em busca de água, abriu as janelas da curiosidade da então adolescente de 15 anos, que se questionou como um problema retratado em uma publicação de 1938 ainda não tinha sido solucionado no Brasil.

Anna pesquisou, estudou e se empenhou para criar o Aqualuz, tecnologia que trata água em zonas rurais por meio da radiação ultravioleta. Mas ouviu vários “nãos” ao buscar apoio financeiro. Hoje, aos 24 anos, é CEO da SDW (Sustainable Development and Water For All), startup com sede em Salvador que desenvolve projetos socioambientais de saneamento e purificação de água.
Nesta entrevista para o #TMJ, ela conta como driblou o desinteresse de universidades e órgãos governamentais pelo seu projeto e por que ter estudado gestão e empreendedorismo foi fundamental para chegar onde está agora.

De onde surgiu a ideia de criar um equipamento para tornar a água potável?

Sempre sonhei em ser cientista e trabalhar em algo que pudesse ter grande relevância. Em 2013 eu li Vidas Secas, de Graciliano Ramos, e o livro me despertou a curiosidade sobre o porquê desse problema ainda existir. Eu me perguntava porque nada estava sendo feito para diminuir a pobreza ou porque não estava sendo resolvido, mesmo depois de tanto tempo de o livro ter sido escrito. No mesmo ano, a ONU declarou que 2013 seria o Ano Internacional da Cooperação para a Água e o Prêmio Jovem Cientista do CNPq teve o tema água. Fiquei inspirada e comecei a pesquisar se existiam soluções para tornar a água potável em áreas remotas.

“Eu me perguntava porque nada estava sendo feito para diminuir a pobreza, mesmo depois de tanto tempo de o livro ter sido escrito”

E o que você descobriu?

Existem muitas tecnologias, mas nenhuma adequada para zonas rurais distantes. O que existia tinha pouca durabilidade e manutenção cara, e isso não funciona nesses locais, porque um equipamento de filtragem tem que ter alta durabilidade e manutenção simples. Com base nas minhas pesquisas desenvolvi uma tecnologia usando um reservatório de alumínio e criei, com a ajuda de meu pai, o primeiro protótipo do Aqualuz e me inscrevi no Prêmio Jovem Cientista, mas não ganhei.

Você ficou desanimada por não ter ganho e pensou em desistir do projeto?

Eu tinha 15 anos e não desanimei. Tentei apoio governamental e de universidades para aperfeiçoar o equipamento, mas não acreditaram em mim. Mesmo assim continuei desenvolvendo melhorias no protótipo. Dei continuidade à evolução da tecnologia de uma forma não ortodoxa, porque sem a estrutura de um laboratório eu não tinha comprovação científica, mas o meu sonho de ser cientista e mudar o mundo falava mais alto. Trabalhei sem estrutura durante quase 3 anos e em 2015, quando entrei na Universidade Federal da Bahia para cursar Biotecnologia, pensei em escolher uma matéria no primeiro semestre que pudesse me ajudar com o projeto. Um veterano me indicou Gestão e Empreendedorismo e aí os horizontes foram ampliando e comecei a procurar entidades de incubação e aceleração.

“Sem a estrutura de um laboratório eu não tinha comprovação científica, mas o meu sonho de ser cientista e mudar o mundo falava mais alto”

O que mudou quando você começou a estudar gestão na incubadora, no sentido de te ajudar a conseguir apoio para o seu projeto?

Procurei editais de fomento e premiações que poderiam divulgar o projeto na mídia e ganhei uma premiação da Young Water Solutions, da Bélgica. Eu e a equipe que montei ganhamos 5 ou 3 mil euros, não me recordo ao certo, e implantamos cerca de 30 unidades do Aqualuz na zona rural da Bahia e começamos a ampliar para outros estados. Em 2019, passei a receber mensagens de amigos sobre um edital internacional da ONU para a inscrição de projetos de qualquer tema relacionado à sustentabilidade. A quantidade de pessoas impactadas com um projeto era um tópico relevante, mas não era critério de exclusão. Na época, tínhamos umas 35 famílias usando o Aqualuz. Estudei o edital para estruturar melhor o projeto e identifiquei pontos que poderiam melhorar ainda mais o Aqualuz e resolvi me inscrever para aprender. No dia que recebi o e-mail, li umas três vezes para entender que tinha sido premiado. Caiu a ficha e chorei de alegria e fui contar aos meus pais, não sabiam que eu tinha inscrito. Mas a ficha só caiu mesmo quando fui para Nova Iorque receber o prêmio.

Em que sentido a conquista desse prêmio refletiu no projeto, além da projeção internacional?

Os órgãos governamentais que tinham fechado as portas para mim me procuraram, e também a iniciativa privada, trazendo propostas para me apoiar. Melhorei ainda mais o Aqualuz e ampliei rede de famílias atendidas. Empresas do setor de energia que atuam nas zonas rurais estão entre alguns patrocinadores e hoje 708 famílias usam o Aqualuz. Até meados de outubro serão 850 beneficiados e a expectativa é de encerrar 2021 com mil famílias usando o equipamento de purificação. Hoje ele consiste em um reservatório de 10 litros que fica exposto ao sol em cima ou do lado da cisterna e em cerca de três horas a água está boa para ser consumida. Há um sensor que muda de cor e a pessoa sabe que já pode usar a água.

Você acha que ter estudado gestão e empreendedorismo foi importante para o sucesso do seu projeto?

Sim. Eu não tinha experiência e conhecimento de gestão, minha mente era voltada para a ciência e ter habilidades de gestão e empreendedorismo abriram muitos níveis de oportunidades do que você pode fazer para ter um impacto maior para ajudar as pessoas.  Eu me via limitada como cientista, me perguntava “o que acontece depois de o projeto estar pronto?”, e o empreendedorismo dá os caminhos do que fazer e até de como montar um produto. Te fornece metodologia para entender os passos do que fazer para o projeto se tornar realidade.

“O empreendedorismo dá os caminhos do que fazer e até de como montar um produto”

Quais são seus planos daqui em diante, com o que você sonha como cientista?

Meu sonho é democratizar o saneamento e o acesso a água para as pessoas quem vivem nas zonas rurais afastadas das cidades. Hoje já tenho cinco produtos de saneamento, entre eles um lavatório urbano para fornecer acesso a água em pontos de alta circulação de pessoas em espaços públicos, um banheiro seco, um sistema natural de tratamento de água e um dessalinizador solar. Já impactamos 13 mil pessoas de 11 estados do Brasil e há muito a se fazer, porque há 100 milhões de pessoas sem saneamento no Brasil.

“Meu sonho é democratizar o saneamento e o acesso a água para as pessoas quem vivem nas zonas rurais afastadas das cidades”

Que conselho você daria para uma pessoa que pensa em montar uma startup?

A palavra que mais representa é a resiliência, porque vamos encontrar muitas dificuldades e a nossa capacidade é testada nessas dificuldades. Sempre vem a pergunta “vou conseguir ou serei um fracasso?”. A resiliência traz uma análise mais critica quando nos questionamos “o que posso fazer para o fator externo não ser um fator impactante para eu desistir?”. Eu fui criada para não me limitar e cresci acreditando que poderia ser quem eu quisesse. Meus pais sempre me apoiaram e isso foi muito importante.

Anna Luísa com sua invenção para purificação de água de cisterna Foto: Divulgação

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Roberta De Lucca

Jornalista colaboradora do #TMJ.

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