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Jornalismo de dados: o que é e como se faz

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Ricardo Fotios, professor das disciplinas Jornalismo de Dados e Conteúdo Online na ESPM, explica porque trabalhar com dados é importante para o bom jornalismo

Janeiro de 2021 foi um mês que ferveu no calendário brasileiro, não devido às temperaturas típicas do verão, mas porque a imprensa noticiou com alarde o consumo elevado de leite condensado registrado nas contas do Governo Federal, além de outros itens. A primeira reportagem sobre o assunto apontava um aumento de 20% nos gastos com alimentos em comparação com o ano de 2019. Foi o estopim para protestos, memes e informações replicadas pela imprensa com base em números que poderiam ter sido analisados de outra maneira, com o foco ajustado para o jornalismo de dados. “Não houve comparação desses números com governos anteriores”, comenta Ricardo Fotios, professor do curso de Jornalismo da ESPM.

Além de informação bem apurada, uma reportagem de qualidade pode ir além, trazendo números relevantes para o leitor. “Há uma diferença entre a reportagem ‘com’ dados e ‘de’ dados. Texto com dados cita números, mas quando usa os números de maneira inteligente, o jornalista amplia a informação”, diz Fotios, dando o seguinte exemplo: “constata-se que a pandemia vai mexer com o trabalho de forma inédita e isso está sendo medido pelo IBGE a partir de pesquisas em domicílio. O leitor vai receber como informação números referentes às taxas de desemprego, emprego e vagas. O jornalista tradicional usa essas informações e faz a reportagem, o jornalista de dados entra no banco de dados do PNAD/IBGE e formula hipóteses do tipo: em todas as regiões teve esse aumento de desemprego? Em quais teve mais ou menos desemprego? O que aconteceu na economia de determinada cidade para haver perda de emprego?”.

Raciocínio lógico

Para isso, o profissional tem que ter capacidade de fazer conta baseada no raciocínio lógico e testar hipóteses num programa simples de computador como o Excel, por exemplo. Com um computador o jornalista faz planilhas, contas e enxerga números a partir disso. É diferente de quando o jornalismo tinha um quê do romancismo da reportagem investigativa. Com a popularização do computador pessoal a investigação originou a reportagem amparada por esse equipamento. Segundo Fotios, quando o jornalista dependia apenas das fontes, era um jornalismo declaratório, que ficava um pouco vendido numa história porque a checagem não existia.

A promulgação da Lei de Acesso à Informação, em 2012, jogou no colo de todos os interessados um universo de dados para serem esmiuçados dentro da legalidade. “A aprovação Lei de Acesso a Informação é um divisor dá águas, porque abriu os cofres e os armários do poder público obrigando prefeituras, governos e autarquias a digitalizarem as informações”, diz Fotios. Apesar dessa facilidade, não bastam computador e dados. É necessário ter uma visão mais pragmática, questionar, criar os dados e cruzar informações para chegar num bom resultado. Em outras palavras, é não se contentar com os as cinco primeiras páginas de pesquisa do Google.

O bom uso das redes e do banco de dados depende disso. Fotios cita a cobertura da Covid-19 como um exemplo de jornalismo de dados brilhante pela capacidade analítica com que a imprensa brasileira peitou o governo, que não quis divulgar os dados sobre a doença. Isso tanto é verdade que em junho de 2020 algumas das principais empresas jornalísticas do país se uniram para criar um consórcio e divulgar informações sobre o coronavírus, baseado em dados oficiais dos governos estaduais.

Informação confiável

A demanda do público por informação mais quantitativa e de credibilidade também contribui para a ascensão dessa metodologia no jornalismo. Isso porque, de acordo com Fotios, as pessoas não estão tão interessadas na opinião do jornalista e sim na notícia. Para opinar, existem os articulistas, mas para informar bem o profissional tem de trabalhar com dado preciso. “Há muitos profissionais que são pedreiros de letrinhas, porque [lhes] falta raciocínio lógico a ponto de puxar o freio de mão [do desenrolar da reportagem]. Tem que ter organização, saber escrever, saber gramática e ter zelo. Não adianta publicar uma investigação incrível com texto ruim. Nesse ponto, a ausência de gosto pelos processos básicos prejudica.”

Na senda dos processos analíticos, é commoditie saber fazer formulações matemáticas elementares, calcular se um valor é maior do que o outro e quanto uma parte representa de um todo. Além do Google Sheets, que é gratuito, é possível se aprofundar com cursos básicos de programação online para leigos ou seguir as indicações de Fotios: Escola de Dados e Abraji.

Exemplos de reportagens:

A pedido do #TMJ Ricardo Fotios cita reportagens que ele considera exemplares no jornalismo de dados:

Os Homens de Bens da Alerj

Música muito popular brasileira

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Tags:
Roberta De Lucca

Jornalista colaboradora do #TMJ.

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