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O prolongado tempo de distanciamento em casa produziu um novo fenômeno: a vida perfeita entre quatro paredes exibida nas redes sociais

Atire a primeira pedra quem não se sentiu meio acabrunhado diante de posts de amigos, colegas e conhecidos que passaram pelo isolamento em casa em modo “disneylândia”…

Afinal, a vida para essas pessoas nunca pareceu tão interessante: lives mostrando o preparo de banquetes gastronômicos com iguarias deliciosas, fotos de momentos de meditação, as capas dos livros que estão lendo, os filmes e séries que viram, novos hobbies (tocar instrumento, descobrir a ginástica xyz). A lista é imensa. E com um detalhe: todo mundo está sempre bonito, sorridente e arrumadinho “no úrtimo”.

Por outro lado, atire uma segunda pedra quem não se sentiu a pessoa mais feliz do mundo diante de quem adotou postura antípoda: a vida virou um inferno, todo mundo descabelado 24×7, de mau humor, reclamando da faxina, do trabalho, de cozinhas, de limpar, de estar com a família, de estar sozinho, da preguiça… A lista também é imensa.

Longe de mim duvidar do que uns ou outros publicam sobre sua própria vida. E muito menos censurar ou controlar o que publicam. E também não vejo problema algum em criar narrativas para a própria vida – segundo o objetivo que se busca e se isso apraz a pessoa.

Uns querem provar (para si mesmos e para os outros) que se saíram “muito bem, obrigado” na pandemia – com uma perfeição de fazer inveja a comercial de margarina. Outros querem sublinhar qualquer motivo para poder reclamar, externar o amargor que está sendo a experiência.

Ambos, no final das contas, só querem a mesma coisa: criar uma versão prêt-à-porter dessa experiência – e que ficará para sempre registrada em um diário. Mas com uma diferença: nos diários, as pessoas confessam tudo de modo aberto e sincero coisas para si mesmas, confiando que ninguém mais vai conhecer seus mais recônditos segredos (sejam frustrações, desejos etc.); já nas redes o que se busca é exatamente o contrário: eu quero mesmo é “compartilhar” (mostrar, ostentar, me afirmar etc. podem ser verbos mais adequados). E, para isso, preciso de um tempero extra: construir minhas memórias de maneira perfeita, no modo “o que vale não é o fato, mas a versão”. Seja lá qual for a maneira como eu quero que essas lembranças soem no futuro.

Se a memória é traiçoeira, criamos um jeito de ela assim ser de nascença…  

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Jorge Tarquini

Sou um jornalista curioso e que se aventura por alguns lugares e experiências: já dirigi revistas, trabalho com produção de conteúdo, escrevo livros (um segredo: escrevi O Doce Veneno do Escorpião, o "livro da Bruna Surfistinha") e roteiros e, agora, faço parte da equipe que criou e produz o #TMJ. Ah: também virei professor de Jornalismo. Ansioso para descobrir para onde os novos tempos, meios e tecnologias podem me levar: afinal, é sempre um prazer me aventurar por novos desafios.

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