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A nova ferramenta da Netflix para acelerar filmes e séries em até uma vez e meia transforma “ganhar tempo” em sinônimo de perder o prazer?      

Você sabe o que significa o verbo fruir? Desfrutar prazerosamente é a melhor definição. Trata-se de uma maneira de explicar nossa necessidade de prazer. De fruição. Todos nós temos um lado hedonista. E o praticamos ao desfrutar de leituras, de filmes, da arte, de comer algo especial em um restaurante diferente ou mesmo em casa, do dolce far niente, da companhia de alguém, de ficar na praia ou no campo apenas deixando o tempo passar – mesmo recorrendo a passatempos como jogar paciência. Ou seja: ocupar o tempo única e exclusivamente para alimentar a alma.

A Netflix poderá transformar a fruição em mais um item da agenda, com hora para começar e terminar – e, quanto menos tempo houver entre esses dois momentos, melhor. Ou seja: com a nova função de acelerar o tempo do que se está assistindo até uma vez e meia – que está sendo testada pelo serviço de streaming – dá para assistir mais coisas em menos tempo, ajudando a cumprir a lista de “must see” de séries, filmes e documentários em menos tempo. Bom? Tenho minhas dúvidas…

Essa ideia de dar “check” numa lista, como quem cumpre tarefas de uma gincana, me remete àqueles turistas tristes e sempre em ritmo acelerado, envolvidos em correrias absurdas para ver “15 países em uma semana” em viagens à Europa. Vi muitos deles descerem apressados de ônibus em pontos turísticos, clicar a atração e voltar correndo para o ônibus, rumo ao próximo ponto turístico – que eles só verão com calma quando voltarem para casa e olharem as fotos…

Entendo todos os argumentos da Netflix e das muitas pessoas excitadíssimas por poder maratonar 10 séries em um final de semana com esse ganho de uma vez e meia sobre o tempo normal. Mas tornar utilitário o tempo da fruição, na minha humilde visão de um senhor de 55 anos, é não entender (e não reconhecer) que isso rouba de nós o prazer de ver algo – trocando-o por mais uma obrigação cumprida.

Muitos diretores, como Judd Apatow (da série Love) e Brad Bird (Os Incríveis e co-diretor de Homem Aranha: no Universo Aranha), já estrilam – geralmente apontando que isso interfere nas decisões artísticas, narrativas e até de entendimento (um silêncio entre dois personagens, que pode indicar uma informação não dita, pode passar batido). “É uma pancada na já combalida experiência do cinema”, resume Bird. É como lamenta o ator Aaron Paul, da série Breaking Bad, sobre essa nova opção: “assume completamente o controle da arte dos outros e a destrói”. 

Posso estar muito velho para tal novidade, mas gosto de me dar o tempo necessário para olhar um quadro, degustar um prato, assistir a um filme. Se algo não vale meu tempo, não o gasto com esse algo. Simples assim. Para mim, é o mesmo que comer um prato de chef na velocidade com que se degusta um combo do McDonald’s. Até miojo tem seu tempo: leva 3 minutos para ficar pronto e ficar “comível”…

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Jorge Tarquini

Sou um jornalista curioso e que se aventura por alguns lugares e experiências: já dirigi revistas, trabalho com produção de conteúdo, escrevo livros (um segredo: escrevi O Doce Veneno do Escorpião, o "livro da Bruna Surfistinha") e roteiros e, agora, faço parte da equipe que criou e produz o #TMJ. Ah: também virei professor de Jornalismo. Ansioso para descobrir para onde os novos tempos, meios e tecnologias podem me levar: afinal, é sempre um prazer me aventurar por novos desafios.

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